É PRECISO IR EMBORA

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Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo.

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Estava na festa de despedida de uma amiga, quando ouvi calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.

Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria: “Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.” Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na ocasião poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.

Fonte: http://obviousmag.org/antonia_no_diva/2015/e-preciso-ir-embora.html#ixzz3xAlqQLv2

Carência afetiva e necessidade de auto-afirmação nas redes sociais

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Com a democratização do acesso à internet e redes sociais, foram internalizados novos aspectos comportamentais e agregados novos valores sociais. Através destes contextos,criamos muitas vezes uma realidade pré-fabricada a partir das nossas carências afetivas e emocionais, sendo as redes sociais o grande termômetro da insatisfação e insegurança das pessoas consigo mesmas. Mas… até que ponto podemos nos satisfazer nos reinventando muitas vezes na irrealidade?

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Vivemos em uma época em que a maioria dos internautas se classificam nas gerações y e z. São jovens adultos e adolescentes que nos trouxeram mudanças comportamentais a partir de novos paradigmas tecnológicos relacionais, e que as gerações anteriores de uma certa forma foram compelidas a se atualizar.

Com a democratização do acesso a internet e redes sociais, foram internalizados novos aspectos comportamentais e agregados novos valores sociais. Presenciamos as transformações sociais reconfigurando o processo de subjetivação das novas maneiras de se relacionar com o mundo e com o outro.

No entanto, junto às conexões, fotos, selfies e check-ins, podemos concluir que as redes sociais foi o propulsor importante para denunciar a nossa fragilidade egoica. Necessitamos incessantemente da aprovação do outro através dos likes e comentários que elevam a nossa auto-estima. Necessitamos da validação, da aprovação do outro, em busca de convencermo-nos daquilo que não temos certeza em nós mesmos.

Esse olhar perscrutador, avaliador e validativo do outro acerca dos nossos estados emocionais, do nosso sucesso e bem estar nos leva à conclusão de que nós não estamos convencidos internamente daquilo que somos e do que sentimos. Existe uma fragilidade em tudo isto e não foi a internet que desenvolveu. Na realidade estas questões já existiam; a internet foi apenas a ferramenta eliciadora para a eclosão dos conteúdos que presenciamos dia a dia nas redes sociais.

Somos seres gregários e nos realizamos nos relacionamentos interpessoais que nos validam através do olhar do outro e isto além de legitimo, é necessario. No entanto, o que percebo nas redes sociais é uma necessidade premente e constante de autoafirmação, onde percebe-se o movimento de convencer o outro do que ainda não estamos convencidos em nós mesmos. Em outras palavras, as redes sociais é o grande termômetro da insatisfação e insegurança das pessoas consigo mesmas.

Isto é comprovado pelo simples raciocínio de que se não conseguimos nos satisfazer em um nível mais profundo, necessariamente precisamos buscar isto fora.

É fato que não somos e nunca fomos e nem seremos auto-suficientes, portanto,não podemos satisfazer sozinhos as nossas próprias necessidades e carências. Precisamos do outro, é do humano. Mas na internet existe uma caricaturização, uma exacerbação do nosso narcisismo.

Sendo assim, as redes sociais “caiu como uma luva” para a insatisfação humana e pra necessidade fundamental do olhar de aprovação do outro enquanto sujeito que necessita ser valorado e reconhecido, causando um aprisionamento desta necessidade constante de criar muitas vezes uma personalidade fictícia, uma realidade muitas vezes mascarada para satisfazermos as nossas fantasias e necessidades profundas.

Até que ponto acreditamos nesta realidade da felicidade constante, dos amores de contos de fadas, em uma vida sem problemas?

Nos afugentamos nas redes sociais para criarmos esta possibilidade. Criamos muitas vezes uma realidade pré-fabricada a partir das nossas carências afetivas e emocionais. Vivemos o que gostaríamos de viver na realidade e isto agora foi possibilitado pela socialização da internet.

…Mas… até que ponto podemos nos satisfazer nos reinventando muitas vezes na irrealidade?

Por: Soraya Rodrigues de Aragão

Fonte: http://www.contioutra.com/carencia-afetiva/

OMS: Suicídio já mata mais jovens que o HIV em todo o mundo

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“As pessoas simplesmente pensam que é um crime ter pensamentos suicidas. Não deveria ser assim”, diz Lauren Ball, uma mulher de 20 anos que já tentou se matar várias vezes.

Seis, para ser mais preciso. A mais recente tentativa foi no ano passado.

“Sei que foi muito difícil para minha família”, contou Ball ao programa de rádioNewsbeat, da BBC, voltado para o público jovem.

‘Gatilhos’

Gabbi Dix sabia que sua única filha, Izzy, estava sofrendo com a chegada da adolescência, mas não imaginou que o suicídio rondasse seus pensamentos.

“Acho que nunca vou conseguir superar isso”, conta a mãe da adolescente de 14 anos, que em 2012 deu fim à própria vida, numa cidade costeira do sul da Inglaterra.

Para muitos especialistas, o suicídio juvenil tem contornos epidêmicos. E, para a Organização Mundial de Saúde, precisa “deixar de ser tabu”: segundo estatísticas do órgão, tirar a própria vida já é a segunda principal causa da morte em todo mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade – ainda que, estatisticamente, pessoas com mais de 70 anos sejam mais propensas a cometer suicídio.

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No Brasil, o índice de suicídios na faixa dos 15 a 29 anos é de 6,9 casos para cada 100 mil habitantes, uma taxa relativamente baixa se comparada aos países que lideram o ranking – Índia, Zimbábue e Cazaquistão, por exemplo, têm mais de 30 casos. O país é o 12º na lista de países latino-americanos com mais mortes neste segmento.

“O suicídio é um assunto complexo. Normalmente, não existe uma razão única que faz alguém decidir se matar. E o suicídio juvenil é ainda menos estudado e compreendido”, diz Ruth Sunderland, diretora do ramo britânico da ONG Samaritanos, que se especializa na prevenção de suicídios.

De acordo com a OMS, 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. E para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

“Para a faixa etária de 15 a 29 anos, apenas acidentes de trânsito matam mais. E se você analisar as diferenças de gênero, o suicídio é a causa primária de mortes para mulheres neste grupo”, diz à BBC Alexandra Fleischmann, especialista da OMS.

Diferenças

O Brasil, neste ponto, passa pelo fenômeno oposto: índice de suicídios nesta faixa etária para mulheres é de 2,6 por 100 mil pessoas, mas a taxa salta para de 10,7 entre a população masculina. Mas, entre 2010 e 2012, o mais recente período de análise de dados da OMS, o índice feminino cresceu quase 18%.

Em termos globais, uma variação chama atenção: 75% dos suicídios ocorrem em países de média e baixa renda. E as diferenças socioeconômicas parecem ter impacto mais forte entre adolescente

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Análise de gráficos sobre suicídios mostra picos dramáticos entre a população de 10 a 25 anos em países de baixa renda.

Tais “saltos” não são vistos em sociedades mais afluentes, o que sugere maior risco de suicídio entre populações mais pobres.

Ainda no segmento juvenil, a OMS diz que mais homens cometem suicídio que mulheres.

“A masculinidade e as expectativas sociais são os principais motivos para essa diferença”, explica Fleischmann.

Mas essa diferença entre os gêneros é menor em países mais pobres, onde mulheres e jovens adultos estão particularmente vulneráveis.

Em países mais ricos, homens se matam três vezes mais que mulheres, mas em países de média e baixa renda, a relação cai pela metade.

A intensidade também tem variações regionais.

Para especialistas, suicídios são mais do que fatalidades. Pesquisas acadêmicas revelam que pelo menos 90% dos adolescentes que se matam têm algum tipo de problema mental. Eles variam da depressão – a principal causa para suicídios neste grupo – e passam por ansiedade, violência ou vício em drogas.

O que mata mais os jovens?

1,3 milhão

de jovens morrem no mundo anualmente, vítimas de causas evitáveis ou tratáveis

  • 1. Trânsito: Acidentes são a principal causa de morte – 11,6% do total
  • 2. Suicídio fica em segundo, responsável por 7,3% das mortes
  • 3. HIV/Aids e infecções respiratórias
  • 4. Violência: O Brasil é o 6º país do mundo com mais homicídios em que vítimas são jovens

E quando o psicólogo ou psiquiatra morre… por suicídio?

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Por Tiago Zortea

Talvez este seja o tabu dos tabus. Mas seria isso realmente possível? A própria existência deste texto dissolve qualquer dúvida em potencial. Um assunto delicado que envolve muitas questões, sobre as quais não se discute na formação em psicologia ou em psiquiatria. Se esta discussão existe, no entanto, trata-se então de algo completamente isolado e não-representativo. A máxima do conhecimento popular “médico, cura-te a ti mesmo!” também se estende ao campo da saúde mental, alimentando e mantendo escondida uma problemática que envolve famílias, clientes, alunos, empregadores e colegas. Numa pesquisa sobre a reação dos pacientes frente à morte do psicoterapeuta por suicídio, os pesquisadores estadunidenses Reynolds, Jennings e Branson (1997) encontraram diferentes tipos de manifestação, incluindo a negação do tipo de morte (alguns pacientes se recusaram a acreditar na causa do óbito, atribuindo a este outras causas como acidente automobilístico ou assassinato), reações de raiva e decepção, descrença na psicoterapia, episódios depressivos, e até mesmo ideações suicidas entre os pacientes. Mas o que envolve o suicídio de um psicólogo ou psiquiatra?

A pesquisa sobre suicídio entre esses profissionais é bastante escassa. Não apenas pelo tabu em si; mas pela alta complexidade envolvida no desenvolvimento deste tipo de investigação. Se a pesquisa geral sobre comportamento suicida traz consigo dificuldades (relacionadas ao sub-registro de casos, respostas não genuínas às questões das pesquisas, por exemplo), as complicações sobre o exame deste tema entre profissionais de saúde mental são ainda maiores. A primeira delas diz respeito ao ditado popular mencionado acima. Como pode um profissional cuidar da saúde emocional de seu cliente se a sua própria não vai bem? Trabalhando com esta temática (a saúde mental do profissional de saúde mental), Munsey (2006) sugere dois tipos de contextos envolvidos no “mal-estar” de um psicólogo ou psiquiatra: adificuldade e o prejuízo. Na dificuldade, o profissional vivencia intenso stress não prontamente solucionável, afetando seu bem-estar e funcionamento, provocando interrupções no raciocínio, no humor e em outras áreas da saúde. No prejuízo, o profissional passa por uma situação mais intensa que compromete seu funcionamento profissional a ponto de trazer mal-estar ao seu cliente ou tornar seus serviços ineficazes.

Em um artigo publicado na revista The Psychologist da Sociedade Britânica de Psicologia, Patrick Larsson (2012) listou uma série de publicações com dados sobre suicídio entre psicólogos nos Estados Unidos: Deutsch (1985) descobriu que em uma amostra de 264 psicoterapeutas alunos de mestrado e doutorado, 2% reportaram tentativas de suicídio. Em outra pesquisa com pouco mais de 800 psicólogos, Pope e Tabachnick (1994) demonstraram que 29% reportaram ideações suicidas, e 4% afirmaram ter tentado tirar a própria vida. Investigando sobre depressão entre 425 profissionais da psicologia, Gilroy e sua equipe (2002) mostraram que 21% dos entrevistados reportaram ideação suicida passiva, 18% ideação suicida sem plano, e 3% indicaram ideação suicida com plano de execução. Por trás desses números, esconde-se a pressão social sobre o profissional para manter-se “congruente com o que prega” e a consequente negação de problemas emocionais mais sérios. Junto a isso, psicólogos e psiquiatras frequentemente retém informações clínicas importantes e não as compartilham com seus próprios terapeutas ou com colegas (Pope & Tabachnick, 1994). É frequente haver a divisão entre “nós”, os psicólogos/psiquiatras, e “eles”, os clientes/pacientes, o que também pode oportunizar e reforçar uma forma de negligência do próprio estado de saúde mental do profissional.

Ao mesmo tempo, o estigma e julgamento social envolvidos no “mal-estar” do profissional pesa sobre ele como um fracasso: “sou uma contradição! Ajudo na transformação da vida de outras pessoas, as auxilio em seu desenvolvimento emocional e comportamental, mas não posso ajudar-me!”. A busca por ajuda pode ser interpretada pelo profissional que sofre como humilhação e uma declaração aberta de seu suposto fracasso ou incongruência. Sabe-se que uma das razões mais comuns de psicólogos e terapeutas não admitirem sofrer depressão ou ideações suicidas está relacionada ao medo da censura profissional (Deutsch, 1985).

Todas essas questões dificultam muito a intervenção e prevenção do suicídio entre trabalhadores da saúde mental. DeAngelis (2011) sugere que algumas medidas deveriam ser tomadas para prevenir o suicídio entre psicólogos [e psiquiatras]: (1) treinamentos sobre risco e prevenção ao suicídio deveriam ser incluídos nos cursos de formação e qualificação de profissionais de saúde mental; (2) melhoraria no treinamento dos profissionais qualificados não somente no gerenciamento do comportamento suicida com clientes, mas também em métodos de intervenção com colegas que eventualmente estejam vivenciando dificuldades; (3) tornar habitual a discussão sobre os desafios envolvidos em ser um psicólogo; (4) melhorar o ensino sobre estratégias de como lidar com possíveis casos de morte de colegas por suicídio; (5) criar grupos de suporte profissional a fim de reduzir o isolamento inerente ao exercício da profissão.

Tema difícil. Tema delicado. Mas da mesma forma como incentivamos a população a falar sobre suicídio, devemos também iniciar um diálogo dentro da psicologia e da psiquiatria sobre a problemática que pode estar do outro lado do sofá de um consultório. Claro, esta é uma tarefa que cabe aos colegas de profissão, (família e amigos, se possível), exclusivamente. Da mesma forma como há trabalho lá fora, há também dentro da categoria profissional, e tais questões não podem mais ser poupadas em nome da imagem social de seres “intocáveis”.

Referências:

DeAngelis, T. (2011). Psychologist suicide. Monitor on Psychology, 42(10), 19.

Deutsch, C. J. (1985). A survey of therapists’ personal problems and treatment.Professional Psychology: Research and Practice, 16(2), 305–315.

Gilroy, P.J., Carroll, L. & Murra, J. (2002). A preliminary survey of counseling psychologists’ personal experiences with depression and treatment. Professional Psychology: Research and Practice, 33(4), 402–407.

Larsson, P. (2012). Psychologist suicide: Practising what we preach. The Psychologist, 25(7), 550-552.

Pope, K. S. & Tabachnick, B. G. (1994). Therapists as patients. Professional Psychology: Research and Practice, 25(3), 247–258.

Munsey, C. (2006). Helping colleagues to help themselves. Monitor on Psychology, 37(7), 35.

Reynolds, J., Jennings, G., & Branson, M. L. (1997). Patient’s reactions to the suicide of a psychotherapist. Suicide and Life-Threatening Behavior, 27(2), 176-181.

Fonte: http://www.contioutra.com

Descoberta a provável causa do vício. E não é o que você pensa

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Faz cem anos que as drogas foram proibidas pela primeira vez – e, ao longo desse século de guerra contra as drogas, professores e governos nos contaram histórias de vício. Essas histórias estão enraizadas em nossas mentes. Elas parecem óbvias, verdades evidentes.

Até três ano atrás, quando comecei uma jornada de 50 000 quilômetros para escrever meu novo livro, ‘Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs’(Perseguindo o grito: os primeiros e os últimos dias da guerra contra as drogas, em tradução livre), eu também acreditava nisso. Mas o que descobri em minhas viagens é que quase tudo o que nos contaram sobre o vício está errado – e existe uma história muito diferente à nossa espera, se estivermos prontos para ouvi-la.

Se realmente absorvermos essa nova história, teremos de mudar muito mais que a guerra contra as drogas. Teremos de nos transformar.

Aprendi com uma mistura extraordinária de pessoas que conheci na estrada. Dos amigos de Billie Holiday, que me ajudaram a entender como o fundador da guerra contra as drogas a perseguiu e ajudou a matá-la. De um médico judeu que foi tirado às escondidas do gueto de Budapeste quando era bebê, para depois destravar os segredos do vício quando adulto.

De um transexual traficante de crack do Brooklyn que foi concebido quando sua mãe, uma viciada em crack, foi estuprada pelo pai dele, um policial de Nova York. De um homem que foi mantido preso no fundo de um poço durante dois anos por uma ditadura para depois emergir e ser eleito presidente do Uruguai, começando os dias finais da guerra contra as drogas.

Tinha uma razão bastante pessoal para sair em busca dessas respostas. Uma das minhas primeiras lembranças da infância é tentar acordar um parente, sem sucesso. Desde então, venho pensando sobre o mistério do vício – o que faz algumas pessoas se fixar em uma droga ou um comportamento a ponto de não conseguir parar? Como ajudamos essas pessoas a voltar para a gente? Ao envelhecer, outro parente próximo ficou viciado em cocaína, e eu me envolvi com uma pessoa viciada em heroína. Acho que me sinto em casa perto de viciados.

Se você me perguntasse lá atrás o que provoca o vício em drogas, te olharia como se você fosse um idiota e diria: “Drogas. Dã.” Não é difícil entender. Achei que tivesse visto isso acontecer na minha própria vida. Qualquer um consegue explicar. Imagine se eu, você e as próximas 20 pessoas que passarem na rua tomássemos uma droga potente por 20 dias. Existem agentes químicos fortes nessas drogas, então no vigésimo-primeiro dia nossos corpos precisariam desses químicos. Teríamos uma necessidade urgente deles. Estaríamos viciados. Esse é o significado de vício.

Essa teoria foi estabelecida por meio de experimentos com ratos – experimentos que foram injetados na psique americana nos anos 1980, em um famoso anúncio da Partnership for a Drug-Free America. Você talvez se lembre. O experimento é simples. Coloque um rato numa gaiola, sozinho, com duas garrafas d’água. Uma delas tem só água. A outra tem água misturada com cocaína ou heroína. Em quase todas as vezes que você fizer esse experimento, o rato vai ficar obcecado com a água com drogas. Ele vai tomá-la até morrer.

O anúncio explica: “Só uma droga é tão viciante, nove de dez ratos de laboratório vão usá-la. E usá-la. E usá-la. Até a morte. É chamada cocaína. E ela pode fazer o mesmo com você”.

Mas, nos anos 1970, um professor de psicologia de Vancouver chamado Bruce Alexander percebeu algo estranho nesse experimento. O rato está sozinho na gaiola. Ele não tem nada para fazer além de usar a droga. O que aconteceria se tentássemos algo diferente? Então Alexander criou o Rat Park. É uma gaiola sofisticada, onde os ratos têm bolas coloridas e túneis para brincar, vários amigos e a melhor das comidas: tudo o que um rato poderia desejar. Alexander queria saber o que iria acontecer.

No Rat Park, todos os ratos tomaram água das duas garrafas, é claro, porque não sabiam o que elas continham. Mas o que aconteceu depois foi surpreendente.

Os ratos nessa vida boa não gostavam da água com drogas. Eles basicamente a ignoravam: consumiam menos de um quarto dessa água, em comparação com os animais isolados. Nenhum deles morreu. Todos os ratos que estavam sozinhos em suas gaiolas se tornaram dependentes da droga, mas isso não aconteceu com nenhum dos animais do Rat Park.

Inicialmente, achei que isso fosse meramente uma idiossincrasia dos ratos, até descobrir que havia – na mesma época do experimento do Rat Park – um equivalente humano em andamento. Era a Guerra do Vietnã.

A revista Time relatou que, entre os soldados americanos, usar heroína estava se tornando um hábito tão corriqueiro quanto mascar chiclete, e existem evidências sólidas para sustentar tal afirmação: cerca de 20% dos soldados americanos ficaram viciados em heroína no Vietnã, segundo um estudo publicado no Archives of General Psychiatry. Muita gente ficou compreensivelmente aterrorizada; elas achavam que com o fim da guerra um enorme número de viciados voltaria para casa.

Mas, na realidade, cerca de 95% dos soldados viciados – segundo o mesmo estudo – simplesmente pararam de usar heroína. Alguns poucos foram para clínicas de recuperação. Eles passaram de uma gaiola aterrorizante para uma agradável, e não queriam mais usar drogas.

Alexander argumenta que essa descoberta é uma contestação profunda tanto da visão direitista, segundo a qual o vício é uma fraqueza moral causada por uma vida de festas e hedonismo, quanto da visão liberal, que diz que o vício é uma doença que existe num cérebro quimicamente sequestrado. Na verdade, segundo Alexander, vício é adaptação. Não é você. É a gaiola.

Depois da primeira fase do Rat Park, Alexander levou seu teste além. Ele refez os primeiros experimentos, nos quais os ratos se tornavam usuários compulsivos de drogas. Ele os deixou usar a droga durante 57 dias – se tem um jeito de ficar viciado, é esse.

Então ele tirou os animais do isolamento e os colocou no Rat Park. Alexander queria saber se, uma vez viciado, o cérebro estava sequestrado e não havia maneira de recuperá-lo. As drogas assumem o controle? O que aconteceu – de novo – foi impressionante. Os ratos pareciam exibir alguns tremores de abstinência, mas logo pararam de usar as drogas pesadamente e voltaram a ter uma vida normal. A gaiola boa os salvou. (As referências completas de todos os estudos que estou mencionando estão no livro.)

Quando soube disso, fiquei encucado. Como seria possível? Essa nova teoria é um ataque tão radical ao que nos contaram que não parecia ser verdade. Mas, quanto mais cientistas entrevistava, quanto mais estudos lia, mais descobria coisas que não pareciam fazer sentido – a menos que você leve em conta essa nova abordagem.

Eis um exemplo de experimento que acontece à sua volta, e pode inclusive acontecer com você um dia desses. Se você for atropelado e quebrar a bacia, provavelmente vão te dar diamorfina, o nome médico para heroína.

No hospital, haverá muita gente tomando heroína por longos períodos, para aliviar a dor. A heroína que o médico te der vai ser muito mais pura e potente que aquela usada pelos viciados, que compram uma droga adulterada pelos traficantes. Então, se a velha teoria do vício estiver certa – a culpa é da droga; ela faz seu corpo precisar dela -, é óbvio o que vai acontecer. As pessoas sairão do hospital e irão direto procurar um traficante para comprar heroína.

Mas eis o que é estranho: isso virtualmente nunca acontece. Como me explicou o médico canadense Gabor Mate os usuários de heroína médica simplesmente param, apesar de meses de uso. A mesma droga, usada pelo mesmo período, cria viciados nas ruas, mas não afeta os pacientes de hospitais.

Se você ainda acredita, como eu acreditava, que o vício é causado por agentes químicos, isso não faz sentido. Mas, se você acredita na teoria de Bruce Alexander, a imagem começa a entrar em foco. O viciado da rua é o rato da primeira gaiola, isolado, sozinho, com uma única fonte de conforto. O paciente do hospital é o rato da segunda gaiola. Ele vai para casa, para uma vida em que está cercado pelas pessoas que ama. A droga é a mesma, mas o ambiente é diferente.

Isso nos dá um insight muito mais profundo que a necessidade de entender os viciados. O professor Peter Cohen argumenta que os seres humanos têm uma necessidade profunda de estabelecer laços e conexões. É como nos satisfazemos. Se não conseguirmos nos conectar uns com os outros, vamos nos conectar com o que encontrarmos – a bolinha pulando na roleta ou a ponta da agulha de uma seringa. Ele diz que deveríamos simplesmente parar de falar em “vício”: deveríamos falar em “ligação”. Um viciado em heroína criou uma ligação com a droga porque não conseguiu estabelecer outras conexões.

O oposto de vício, portanto, não é sobriedade. É conexão humana.

Quando soube disso tudo, fui sendo persuadido gradualmente. Mas restava uma dúvida incômoda. Será que os cientistas estão dizendo que a parte química do vício não faz diferença nenhuma?

Me explicaram – você pode se viciar em jogo, mas ninguém vai achar que você vai injetar um baralho nas veias. Você pode ser viciado, mas não há o lado químico. Fui a uma reunião dos Viciados em Jogos Anônimos em Las Vegas (com a permissão de todos os presentes, que sabiam que eu estava lá apenas como observador). Eles eram tão viciados quanto os usuários de cocaína e heroína que conheci. Mas uma mesa de pôquer não tem químicos.

Ainda assim, perguntei: a química desempenha algum papel? Um experimento tem a resposta precisa, que descobri no livro The Cult of Pharmacology (o culto da farmacologia, em tradução livre), de Richard DeGranpre.

Todos concordam que fumar cigarros é um dos processos mais viciantes que existem. Os químicos do tabaco vêm da nicotina. Quando foram inventados os adesivos de nicotina, no começo dos anos 1990, houve uma grande onda de otimismo – os fumantes poderiam satisfazer suas necessidades químicas sem o resto dos efeitos imundos (e mortais) do cigarro. Seria a libertação.

Mas o Ministério da Saúde descobriu que apenas 17,7% dos fumantes conseguem parar de fumar usando adesivos de nicotina. É claro que não é pouca coisa. Se os químicos respondem por 17,7% do vício, como mostra esse dado, ainda temos milhões de vidas arruinadas globalmente. Mas o que ele revela, mais uma vez, é que a história que nos contaram sobre as causas químicas do vício é real, mas só uma parte pequena de uma fotografia muito maior.

Isso tem enormes implicações para a secular guerra contra as drogas. Essa guerra massiva – que, como vi, mata gente dos shoppings mexicanos às ruas de Liverpool – é baseada na afirmação de que precisamos erradicar fisicamente uma vasta gama de químicos, pois eles sequestram cérebros e provocam o vício. Mas, se as drogas em si não são as causadoras do vício – se, na verdade, é a desconexão que causa o vício –, então nada disso faz sentido.

Ironicamente, a guerra contra as drogas na verdade potencializa esses causadores de vício. Por exemplo: fui a uma prisão no Arizona – “Tent City” –, onde os detentos ficam presos em minúsculas celas de pedra (“O Buraco”) por semanas a fio se usarem drogas. É a versão humana mais próxima que consigo imaginar das gaiolas de isolamento dos ratos. Quando os presos saem da cadeia, não conseguirão emprego, porque têm ficha criminal – garantido um isolamento ainda maior. Vi exemplos assim no mundo inteiro.

Existe uma alternativa. Você pode criar um sistema desenhado para ajudar os viciados a se reconectar com o mundo – e, assim, deixar o vício para trás.

Isso não é teoria. Está acontecendo. Vi com meus próprios olhos. Cerca de 15 anos atrás, Portugal tinha um dos piores problemas de drogas da Europa – 1% da população era viciada em heroína. Os portugueses tentaram a guerra contra as drogas, mas o problema só piorava. Então decidiram fazer algo radicalmente diferente. Resolveram descriminar todas as drogas e usar o dinheiro gasto para prender os viciados em programas de reconexão – com seus sentimentos e com a sociedade. O passo mais crucial é garantir moradia e empregos subsidiados, para que eles tenham propósito na vida, algo que os faça sair da cama pela manhã. Em clínicas acolhedoras, vi os viciados aprendendo a se reconectar com seus sentimentos, depois de anos de trauma e de um silêncio forçado causado pelas drogas.

Um exemplo que observei foi um grupo de viciados que recebeu um empréstimos para começar uma empresa de coleta de lixo. Repentinamente, eles eram um grupo, todos conectados entre si e com a sociedade, cuidando uns dos outros.

Agora se conhecem os resultados disso tudo. Um estudo independente do British Journal of Criminology descobriu que, desde a total descriminação, o vício caiu e o uso de drogas injetáveis teve redução de 50%. Repito: o uso de drogas injetáveis teve redução de 50%. A descriminação foi um sucesso tão grande que pouquíssima gente em Portugal defende uma volta ao antigo sistema. O maior opositor dessa política em 2000 era João Figueira, o principal policial da força antidrogas. Ele fez alertas terríveis, do tipo que se espera ouvir na Fox News ou ler no Daily Mail. Mas, quando conversamos em Lisboa, Figueira me disse que nenhuma de suas previsões se confirmou – e agora ele espera que o resto do mundo siga o exemplo português.

Isso não é relevante só para os viciados que amo. É relevante para todos nós, pois nos força a pensar de maneira diferente a respeito de nós mesmos. Os seres humanos são animais que precisam de laços. Precisamos de conexões e de amor. A frase mais sábia do século 20 foi “Apenas se conecte”, de E.M. Forster. Mas criamos um ambiente e uma cultura que cortou conexões, ou que oferece apenas um simulacro delas: a internet. O crescimento do vício é sintoma de uma doença mais profunda na maneira como vivemos – constantemente olhando para o próximo objeto brilhante que queremos comprar, em vez dos humanos que nos cercam.

O escritor George Monbiot fala na “era da solidão Criamos sociedades humanas em que o corte de conexões nunca foi tão fácil. Bruce Alexander, o criador do Rat Park, me disse que falamos demais em recuperação de indivíduos. Precisamos falar de recuperação social – como todos nos recuperamos juntos da doença do isolamento que recai sobre nós como uma névoa densa.

Mas essas novas evidências não são apenas um desafio político. Elas não nos forçam somente a transformar nossas cabeças. Elas nos forçam a transformar nossos corações.

É muito difícil amar um viciado. Quando olho para os viciados que amo, é sempre tentador optar pela estratégia durona recomendada por programas como Intervention – falar para o viciado tomar jeito ou então cortá-lo de sua vida. A mensagem é que o viciado que não parar com as drogas deve ser rejeitado. É a lógica da guerra contra as drogas importada para nossas vidas. Mas, na verdade, aprendi que isso só agrava o vício – e você pode perder a pessoa para sempre. Voltei para casa determinado a me aproximar como nunca dos viciados da minha vida – dizer para eles que os amo incondicionalmente, consigam eles parar ou não.

Quando terminei minha longa jornada, olhei para meu ex-namorado, em crise de abstinência, tremendo no quarto de visitas, e pensei nele de um jeito diferente. Há um século estamos entoando cantos de guerra sobre os viciados. Quando secava a testa dele, me ocorreu que deveríamos estar entoando canções de amor.

A história completa da jornada de Johann Hari – contada por meio das histórias das pessoas que ele conheceu – está em ‘Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs’ (Perseguindo o grito: os primeiros e os últimos dias da guerra contra as drogas, em tradução livre), publicada pela Bloomsbury. O livro foi elogiado por Elton John, Naomi Klein e Glenn Greenwald, entre outros. Saiba mais sobre o livro

As referências completas e fontes para todas as informações citadas neste artigo estão nas extensas notas do livro.

POR: 

FONTE: http://www.brasilpost.com.br/johann-hari/descoberta-a-provavel-cau_b_7597010.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004

JUNG E O TARÔ

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SEGUNDO JUNG, A INDIVIDUAÇÃO É UM INTENSO PROCESSO DE AUTOCONHECIMENTO, SEU CARÁTER INICIÁTICO ESTÁ GRAVADO NAS CARTAS DO TARÔ – A JORNADA DA ALMA EM BUSCA DE SI MESMA.

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Ao contrário do que muitos pensam, uma leitura de tarô, antes de se prestar a qualquer tipo de adivinhação do futuro, cumpre lançar maior luz sobre o presente. Vale como instrumento de interlocução, ampliando e aprofundando a reflexão, além de nos levar a visitar nosso mundo psicológico mais profundo.
Empreender uma jornada pelas cartas do Tarô é lidar com símbolos e experiências que dizem respeito ao aprendizado da alma em seu perene caminho evolutivo, desvelando degrau por degrau os ensinamentos guardados por trás do véu de uma milenar sabedoria. Vamos caminhar juntos?

MAS… O QUE É O TARÔ?
O Tarô é um sistema oracular composto por 78 cartas de baralho, ou “arcanos”, nome este que designa um conjunto de segredos. Destes, 56 são chamados de “arcanos menores”, guardam estreita relação com as cartas de baralho comum e acham-se subdivididos equitativamente em quatro naipes de 14 cartas: bastões/paus; taças/copas; gládios/espadas e moedas/ouros.

As 22 cartas restantes compõem os “arcanos maiores”; estes encerram maior riqueza simbólica em suas figuras, representam toda uma série de temas complexos inerentes à condição humana e expressam situações próprias a toda alma que, desejosa por desvendar seu papel nesta existência, instigada em desvendar os mistérios de sua própria origem, atira-se à jornada do autoconhecimento na intempestiva busca por si mesma.

TARÔ, INDIVIDUAÇÃO E A NOVELA INICIÁTICA.

Ora, não é por acaso que os 22 Arcanos Maiores do Tarô acham-se numerados. A seqüência das cartas, tal qual os capítulos de uma novela, retrata a história do herói em sua senda iniciática, repleta de lições, provas e experiências transcendentes. Incontáveis são os mitos que exploram o tema do homem colocado à prova, conclamado a escolher seu rumo nas encruzilhadas do caminho, ao longo do qual irá enfrentar perigos, resolver enigmas e romper com os padrões que lhes eram originalmente impostos.
A esse ininterrupto exercício de aprimoramento pessoal, destinado a orientar a personalidade ao pleno desenvolvimento de suas capacidades, Carl G. Jung (1875-1961), médico psiquiatra suíço, chamou de “individuação”, pedra de toque de toda a “psicologia analítica”, nome pelo qual ficou conhecida sua particular abordagem terapêutica do psiquismo humano. O processo da individuação é algo complexo e, em última instância, cumpre psicologicamente o papel dos grandes rituais de iniciação, pois, oferece à personalidade não só a chance de realizar-se plenamente como confere à alma a possibilidade de voltar-se sobre si mesma e mergulhar profundamente no abismo dos mistérios transcendentes.
A questão central de toda a psicologia junguiana não é outra senão a de estabelecer uma ponte segura entre o consciente e o inconsciente, que permita mútua interação entre ambos, tornando viável o fluir harmônico de toda energia constelada entre o nosso mundo de fora e o nosso mundo de dentro. Para Jung, o ego, núcleo da personalidade, centro de nossa vida psíquica consciente, proporcionalmente estaria para o inconsciente assim como uma ilha está para o oceano à sua volta. Outra analogia cabível seria imaginamos a Terra, mero grão de areia a orbitar o Sol, uma pequena estrela, como sendo nossa consciência pessoal; o mundo inconsciente estaria então representado por todo o restante do Universo no qual estamos inseridos, ele próprio expressão de uma supra consciência cósmica.

Clareando os conceitos, a individuação nada mais é que essa incessante busca empreendida pelo ego, em sua diminuta condição, pelas experiências possíveis, comuns ou transcendentes, que possam não somente levá-lo à sua máxima realização. Todo esse processo se direciona à comunhão do ego com aquilo que poderíamos chamar de “centro da totalidade psíquica”, a abranger, obviamente, o mundo inconsciente. A este hipotético ponto de fusão entre consciência e inconsciente, núcleo da personalidade total e ao mesmo tempo passagem para uma dimensão transcendente e coletiva, espécie de vórtice para o psiquismo universal, Jung denominou de Selbst, em inglês self, que em português melhor ainda se traduz por “si mesmo”.

O si mesmo seria, pois, o órgão regulador de todo o psiquismo, dotado de qualidades abissais que ultrapassam as dimensões do simples ego. Paradoxalmente, cabe a ele ser tanto o ponto central quanto o transcendental de toda a psique. Vale aqui outra analogia: Nicolau de Cusa (1401-1464), monge filósofo do século XV, usara a seguinte imagem ao referir-se à onisciência divina: “Deus é uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não se delimita em parte alguma”. O dito bem se aplica ao si mesmo, que se traduz como algo imanente a toda e qualquer personalidade, mas ao mesmo tempo se revela transcendente à própria condição da alma.
Nesse sentido, os 22 arcanos maiores compõem uma alegoria do processo de individuação. Seu conteúdo hermético e simbólico, particularmente de caráter medieval em se tratando do baralho de Marselha, bem representa as situações que comumente nos esperam sempre que encarnamos o papel de heróis de nossa própria jornada. Vivenciar a individuação equivale tanto a buscar por nossa origem como questionar o que fazemos aqui. É ainda procurar pelo sentido da vida, ou buscar saber pra onde vamos após a morte, se é que algo a ela sobrevive. Isso faz da individuação um constante percurso de desenvolvimento, e sua estrada, sempre que trilhada a fundo, nos reserva inequivocamente uma série de experiências transformadoras, de cunho propriamente iniciático, que podem ser consideradas “arquetípicas”.

OS ARQUÉTIPOS DO TARÔ

Arquétipo é palavra de origem grega, a significar “padrões arcaicos” (arqui = antigo, arcaico + typos = padrão, matriz). O primeiro a usar o termo foi Platão, no século IV a.C. Jung se valeu dele para denominar certos padrões registrados no comportamento da humanidade, manifestados ao longo de toda a sua história pelas mais diversas culturas. Embora semelhantes entre si, expressam-se pelas variedades de mitos, religiões, lendas e folclores; também por meio de padrões identificáveis no mundo onírico, quer seja no cerne de nossos sonhos, quer sob a forma de fantasias.

Os arquétipos traduzem, pois, “matrizes comportamentais” herdadas por todo ser humano, são arcabouços capazes de selecionar, nas experiências da vida, os elementos significativos que estejam em sintonia com o processo inato da individuação. Nesse sentido, os arquétipos são verdadeiras potências imateriais, surgem como entidades impalpáveis e incognoscíveis, mas se manifestam por meio de idéias e imagens, e vestem-se com as mais distintas roupagens de acordo com as culturas que os representam.

O Tarô, por exemplo, tem nos arquétipos sua especial riqueza e os simboliza amplamente. Um mergulho no mundo dos arcanos permite-nos espelhar arquetipicamente a nossa alma. Percorramos juntos então, passo a passo, essa estrada pictográfica da individuação.

A GRANDE JORNADA DE TODOS NÓS

Comecemos pela especial figura do Louco que, exceção à regra, não se mostra numerada. Por não ter um número que lhe determine a posição, O Louco acha-se livre para fazer-se presente em qualquer parte da jornada, podendo assumir diferentes valores no jogo da vida. Daí, talvez ter sido preservado sob a efígie do curinga nos baralhos comuns. Preferencialmente o colocamos entre o tudo e o nada de Pascal, isto é, simultaneamente ocupando o início e o fim da jornada. Feito Jano dos romanos (a divindade de dois rostos que nunca se olham, voltados que estão para lados opostos), é O Louco quem sabe do porvir tão bem quanto do passado, já que se acha situado antes do primeiro arcano, O Mago, ao mesmo tempo em que ocupa a posição após o último, O Mundo. O Louco confere assim ao conjunto um caráter rotativo e perene. Ao assumir duplo papel de fechar e (re)abrir o ciclo, promete a continuidade da individuação. Representa ainda uma força inconsciente, não personificada, por isso sem número, e a figura de bobo da corte expressa a ambivalência de sua função, já que os tais bobos medievais, antes de idiotas, eram sábios, quiçá os únicos capazes de falar verdades ao rei sem o risco de perder a cabeça.
O Louco nos prende assim em sua mágica, na paradoxal leitura de seu sentido. Se pode ser visto como um bobo que nada sabe sobre si, caminhando a esmo, por outro lado é ele o sábio que, tendo mergulhado no abismo de si mesmo, ressurge renascido, disposto a retomar sua senda. E não há monotonia nem repetição nesse processo; embora as experiências mais fortes sejam arquetípicas, elas são inusitadas no modo como acontecem e nos propiciam leituras sempre novas do livro da vida. Também os passos do Louco nunca são lineares, pois a individuação pressupõe voltas e rodeios até que nos aproximemos do si mesmo, ou até que tropecemos em algo e caiamos dentro dele.

A carta seguinte, O Mago, é a consciência personificada. Resulta da transformação do impulso inconsciente do Louco, agora direcionado conscientemente para o trabalho da individuação. Decididamente, O Mago é o grande herói desta jornada (ele é cada um de nós), pois a cada passo nos transformamos, conforme desfilamos pela “estrada real” dos Arcanos. Ele está em pé; é, portanto, ativo; e, feito aprendiz de feiticeiro, opera na mesa à sua frente. Seu braço esquerdo aponta para cima, o direito para baixo, como se nos lembrasse da famosa máxima de Hermes Trimegistrus, a ensinar que o nível humano da existência apenas reproduz o plano cósmico da vida; que somos, sim, manifestação da divindade, mas nem por isso privilégio algum da natureza. O homem precisa trabalhar com o que tem às suas mãos e intuir acerca do Universo à sua volta para que venha a compreender-se.
Consoante os preceitos básicos da magia, O Mago posiciona-se como elo entre os planos humano e divino, surge como centro e medida de todas as coisas. Quatro objetos, dentre outros, despertam-nos a atenção. São eles a moeda e a baqueta que traz em suas mãos, além dos copos e da adaga postos sobre a mesa. Aludem claramente aos quatro naipes do baralho: ouros, paus, copas e espadas, que representam a inteireza do caminho ora descortinado. Isto porque o 4, assim como o 12, são números que por excelência expressam a totalidade, haja vista serem quatro as estações do ano e doze o número de seus meses, também as constelações do zodíaco por onde o Sol passeia ao longo de um ciclo. Quatro e 12 sempre nos dão a idéia de algo completo.
Podemos perceber em cada um dos 22 Arcanos uma mandala oculta. Jung escolheu as mandalas (nome sânscrito a designar “círculo mágico”) como símbolos da integridade psíquica, visto que são geralmente representadas por formas circulares (ou outras que insinuem a presença de um centro). No Mago ela se mostra tanto pelos instrumentos dos quatro naipes citados como pela mesa de três pés e quatro cantos, números estes cujo produto nos leva ao 12. É como se O Mago já tivesse diante de si o tesouro que deseja encontrar pelo caminho, o que, aliás, lhe permite seguir viagem mesmo que não saia do lugar onde se encontra, até porque a individuação é processo essencialmente espontâneo de nosso psiquismo.

Pois bem, tendo à frente uma senda que se desdobra em quatro caminhos, O Mago, resoluto, entende que precisa percorrer simultaneamente todos eles, sob pena de nunca alcançar a transcendência, razão pela qual se divide ele próprio no quatérnio que lhe sucede, formado pelos próximos quatro Arcanos: A Papisa, A Imperatriz, O Imperador e O Papa.

Estes representam uma diferenciação a mais da “ciência dos opostos”, já insinuada pelos braços do Mago que ligavam o em cima ao embaixo. Observemos que as quatro cartas se casam muito bem, são duas figuras femininas e duas masculinas; há da mesma forma uma dupla de imperadores e outra de sacerdotes; e é no equilíbrio de cores de suas vestes que o baralho de Marselha oculta outros mistérios. O detalhe mostra que as mulheres vestem mantos azuis sobre os vermelhos, ao passo que os homens trazem a composição contrária, com vestes vermelhas por cima das azuis. Aqui as cores também têm significado; o vermelho associa-se ao lado consciente, ao aspecto racional do psiquismo. O azul representa o inconsciente, a irracionalidade, os processos intuitivos de percepção.

Nas personagens femininas (A Papisa e A Imperatriz), a intuição prevalece sobre a razão; já na dupla masculina (O Imperador e O Papa), são os processos racionais que estão por cima. A psicologia analítica identifica, além disso, tanto o aspecto feminino no interior do psiquismo masculino, ao qual Jung batizou de anima (no caso, definido pela Papisa), bem como a relação contrária, a essência masculina no psiquismo feminino, denominada animus (no Tarô, melhor representado pelo Papa).

A Papisa é, antes de tudo, o complemento do Mago. Podemos inclusive dizer que todo o tarô se resume a duas cartas: uma é O Mago; a outra, A Papisa, que representa tudo aquilo que lhe falta, sendo ela, portanto, o verdadeiro moto de sua busca; por isso, descortinar o véu da Papisa significa penetrar nos mistérios. Se o Mago é movimento, ela é repouso; se ele é ativo, ela é a receptividade em pessoa. Ele é ação; ela, reflexão. Em suma, todo o desenrolar do baralho a partir do Mago é a Papisa, pois tudo aquilo que estiver em seu caminho servir-lhe-á como complemento. A relação Mago-Papisa no Tarô é correlata do binômio yang-yin dos chineses; aliás, não poderia faltar no esoterismo do Ocidente o arquétipo da “ciência dos opostos”.

Havendo o Mago experimentado as diferentes maneiras de perceber o mundo, e consciente da natureza interminável de seu caminho, pela primeira vez tem nítida noção das dificuldades que ainda enfrentará. Sua determinação estará sempre à prova.

Na situação arquetípica sucedânea, o herói depara-se com a encruzilhada do Enamorado, quando se encontra dividido entre duas mulheres que cobram dele uma escolha. A que está à sua direita, para a qual ele volta sua face, toca-lhe o ombro, e veste roupas predominantemente vermelhas. Representa a via racional. A outra moça, aparentemente mais jovem, vestindo principalmente o azul, toca-lhe o coração, como se quisesse despertar suas emoções, seu lado intuitivo. No alto, acima da cabeça do herói, em instância que transcende sua consciência, um anjo direciona sua seta para a via intuitiva, como se quisesse orientá-lo em sua escolha. Enfim, aí está representado o drama do livre arbítrio, capaz de atormentar a consciência com o conflito da eterna dúvida. O personagem acha-se cruelmente dividido entre o racional e o intuitivo, observe-se suas roupas listradas de azul e vermelho, além do amarelo, seu aspecto pessoal. Mas pouco importa por onde seguirá nosso herói, até porque razão e intuição encontram-se mescladas em todas as experiências da vida, apenas predominando ora esta, ora aquela. O principal é que o herói dê seu próximo passo, para que não reste estagnado em seu caminho. Siga por onde seguir, desembocará na tríade seguinte, O Carro, A Justiça, e O Eremita.

Decidindo prosseguir, O Mago experimenta a extroversão das conquistas rápidas, simbolizado pelo Arcano VII, O Carro. O primeiro terço das 21 cartas numeradas se completa. O Mago está emancipado. Destemido, deixa de ser mero neófito para amadurecer na senda e, mediado pelo senso da Justiça, virtude que será assimilada no Arcano subseqüente, chega à condição de maior introversão e capacidade introspectiva, quando descobre que há sabedoria em seu próprio poço, a ser buscada por um processo sereno e cuidadoso, como o faz o velho Eremita.

A carta X, A Roda da Fortuna, traz as vicissitudes da vida, com seus rodopios e reveses. O herói deve afinal saber tirar proveito do movimento do cosmos. “Há nas lides do homem uma maré que, se aproveitada enquanto cheia, o levará à fortuna”, diria Shakespeare.

No Arcano XI, A Força, alcançamos a metade do caminho, mas prosseguem as vicissitudes, até que O Mago perceba que, invariavelmente, ações sutis repercutem melhor do que as atitudes brutas, como nos mostra a figura intuitiva da vestal, que, sob um manto azul, domina com suas delicadas mãos toda a brutalidade duma besta-fera, contendo-a pela mandíbula. A fera ocupa a metade inferior da carta e, não fosse sua cor distinta, estaria misturada ao hábito da personagem. Representa os processos instintivos, aspectos brutos que esperam ser lapidados e transformados em algo mais sutil.

Os dois Arcanos seguintes nos trazem a experiência da morte. O Enforcado é ela própria, em seu sentido terminal. A lâmina mostra o herói dependurado, de cabeça para baixo, vendo a vida por seu outro ângulo; ou como se estivesse num ataúde, cercado por terra e troncos, os dois verticais com seus doze ramos podados, a representar o esgotamento da mandala, a morte aparente do dinamismo psíquico. Mas o herói, se sobrevive à força perturbadora deste arquétipo que dele exige sacrifícios, comunga pela primeira vez com o mundo transcendente, representado pelo Arcano XIII. Por ser o único sem nome, nem deveria ser chamado Morte. O esqueleto que ceifa sugere transformações substanciais, a troca do velho pelo novo. É um momento iniciático de fértil aprendizagem, representada pelos arbustos em quantidade que brotam neste novo campo da existência. Afinal, o 13 expressa o rompimento da mandala, a transposição da ordem; a soma de 1+3, entretanto, leva-nos de volta ao 4, à mandala de uma nova dimensão.

O Arcano XIV, A Temperança, é uma das quatro virtudes medievais representadas no Tarô. As outras três, já vistas, são a justiça (Arcano VIII), a prudência (Arcano IX), e a força (Arcano XI). Este tema é chave dos alquimistas, e o segundo terço se completa com o Mago promovido a esta condição. A Temperança se (re)vela no equilíbrio parcimonioso de seu movimento, e a figura feminina aqui traz azul e vermelho em iguais proporções.

Uma vez feito alquimista, pode agora nosso herói experimentar as provações mais duras, reservadas aos que penetram no Diabo, Arcano XV, ou na Casa de Deus, Arcano XVI.

Tais estações referem-se ao mundo sombrio, aos aspectos mais críticos de nossa personalidade, produtos que são de partes pouco exploradas ou desconhecidas de nós mesmos. O demônio nada mais faz do que escravizar a nossa consciência, prendendo-a em seu altar, exigindo de nós o auto-sacrifício da extinção de nossas buscas. É por meio dele (o intelecto) que nos sentimos separados da fonte primordial. Por conta dessa mesma consciência é que podemos refletir acerca da única certeza que temos, a de nossa morte, de onde nasce uma natural angústia capaz de nos prender em temores pessoais. O Mago descobre que a única forma de evitar o demônio é enfrentá-lo! Se por um lado não devemos negar os méritos de nosso intelecto, por outro, de alguma forma, precisamos transcendê-lo.

A Casa de Deus, arcano seguinte, é o arquétipo da destruição, das mudanças avassaladoras em nossas vidas. Por vezes, somente algo assim tem força capaz de nos arrastar para longe do Diabo que antes nos prendia. A Torre fulminada mostra o ego abalado pelo grito de um inconsciente incontido, simbolizado pela labareda de fogo que explode a cúpula da Torre, cuja forma lembra uma coroa, real adorno de uma consciência que se esquece muitas vezes de perceber a realidade por detrás da realeza.

O Arcano XVII, A Estrela, nos entrega à esperança. Revela à consciência libertada que a individuação continua a ser possível. Ao menos é o que representam as luzes que brilham no firmamento. A jovem desnuda não é outra senão o nosso herói, despido dos valores mundanos, a verter no rio do inconsciente coletivo suas próprias águas (azuis) de seu mundo intuitivo, de seu inconsciente pessoal. As estrelas no céu simbolizam as almas já individuadas. Pela primeira vez os 4 elementos se agrupam numa mesma lâmina: água, fogo, terra e ar estão aí representados, este último reafirmado pela presença do pássaro, símbolo da alma inclusive. De novo descobrimos a mandala disfarçada.

A Lua, Arcano XVIII, representa as trevas, os porões da alma; na psicologia junguiana será chamada de sombra, representando o lado oculto do psiquismo, fonte de inúmeros perigos e potenciais que jazem adormecidos. As trevas psicológicas apresentam sérios desafios à nossa frágil consciência, que precisará pedir ajuda à intuição para vencer a provação noturna. A Lua é receptiva, absorve a energia (as gotas) do sistema, e demarca a aproximação entre consciência e inconsciente, aqui representados pela duplicidade de símbolos: dois lobos a serem vencidos, dois templos a serem alcançados. Jung admitia que quando os símbolos se duplicavam em nossos sonhos, provavelmente estaria havendo a assimilação de valores inconscientes por uma consciência que se aprimora.

Vencida a noite negra, o Sol do Arcano XIX é quem traduz o momento áureo da jornada, quando a consciência comunga do si mesmo, inspirado instante em que ela se ilumina. A energia agora se espalha pelo sistema, e as duas crianças (consciência e inconsciente) que se tocam para cá do muro que antes as separava, descobrem-se idênticas, visto que nenhuma diferença deveria mesmo haver entre instâncias de um mesmo psiquismo. No contato mútuo das crianças, a ponte para o si mesmo se apresenta, e a iluminação preenche esta mandala.

Mas não por isso o caminho chega ao fim. Restam ainda a análise e a síntese alquímica do processo, previstos pelos últimos dois Arcanos, O Julgamento, XX, e O Mundo, XXI. Juntos simbolizam o ajuste da mandala pessoal, momento em que o herói procura reorganizar seu mundo psicológico, transformado que está por tudo aquilo que sofreu nessa trajetória.
No Mundo, a síntese (a mandala) se define claramente. O herói está liberto no núcleo da carta, em sintonia com o Universo à sua volta. As figuras nos quatro cantos da carta são ainda alusão aos quatro naipes em que se desdobra todo o baralho. Mas O Mundo não é fim da jornada, mas tão-somente o fechar de um ciclo. Serve para impulsionar o herói (nós mesmos) para frente. Afinal, lembremo-nos do arcano-curinga: ao mesmo tempo em que somos sábios em relação àquilo que vivemos, somos completamente loucos frente ao grande desconhecido. A verdade é que a individuação nunca termina, mas por meio dela nos aperfeiçoamos a cada passo. Vamos dar outra volta?

Por: Paulo Urban, 2008

Para saber mais: O que é Tarô, Paulo Urban – Coleção Primeiros Passos, ed. Brasiliense;

Jung e o Tarô, Sallie Nichols, ed Cultrix

O que são doenças psicossomáticas?

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As doenças com “fundo emocional”, as doenças da psique.

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No início da psicanálise, na verdade, antes do início da psicanálise, Freud – que morava em Viena, Áustria – foi estudar com Charcot em Paris. Charcot havia ficado mundialmente conhecido pelos seus trabalhos na Salpetrière, especialmente com pacientes histéricas. Em resumo, podemos dizer que Charcot conseguiu demonstrar que a histeria não era uma doença orgânica, física. Com a hipnose, ele podia tirar o sintoma da paciente e até inserir um novo sintoma.

Hoje em dia, às vezes ouvimos falar de alguém que foi ao médico e ouviu dele que a sua doença era de fundo emocional ou que o que o paciente estava sentindo era um sintoma nervoso, de estresse, ansiedade. Todas estas causas (fundo emocional, nervoso, etc) significam o mesmo: a origem do sintoma não é orgânica, não está no físico, no corpo. É, portanto, uma doença psicossomática.

Definição de psicossomática

A palavra psicossomática é de origem grega. É uma junção de duas palavras gregas: psique (psico – alma) e soma (corpo). E, deste modo, uma doença psicossomática é aquela que não é exclusivamente somática, corporal, mas tem origem na psique, na alma. Evidente que é difícil dizer com clareza o que é a psique. Porém, a ideia é simples: a psique inclui tudo o que não conseguimos localizar no corpo de uma maneira específica: nossas emoções, sentimentos, pensamentos. Mesmo com as descobertas da neurociência, ainda há muitas questões a serem esclarecidas quanto à localização no cérebro.

De todo modo, fica fácil de entender se pegarmos um exemplo.

Por exemplo, você acordar certa manhã e começa a sentir dores de cabeça e dores no corpo. Você vai até um médico e ele constata que o que você está sentindo foi causado por um vírus, o vírus da dengue. Neste caso, os sintomas são explicados por um agente físico, um vírus.

Agora, se em outro momento da sua vida você vai até o médico e reclama de dores de cabeça e, depois de muitos exames e testes, ele chega à conclusão de que não há nada errado no seu corpo, ele pode então dizer que a dor de cabeça é uma doença psicossomática. Como disse, talvez não seja esta a palavra utilizada, talvez o doutor use o estresse, a ansiedade ou as emoções como causas.

Mas as palavras utilizadas são indiferentes. O que se deve distinguir é entre uma causa que é física e uma causa que não é física. Ou melhor, até o momento ainda é complicado de localizar no sistema nervoso, por isso, usamos o termo que ficou consagrado na história (psique ou alma).

O sentido das doenças psicossomáticas

Se formos sinceros conosco, em nosso mundo interno, veremos que em muitas circunstâncias podemos ter tido doenças psicossomáticas. Uma dor de cabeça, uma tosse, intestino preso ou solto demais, azia, entre outros. Contudo, será que podemos encontrar um sentido neste tipo de manifestação? Ou seja, será que cada doença psicossomática tem um significado?

Por exemplo, alguns autores argumentam que dores de cabeça (sem origem física) são resultado de um comportamento excessivamente autocrítico ou perfeccionista.

Então, teríamos:

– dores de cabeça psicossomáticas = autocrítica, perfeccionismo

A ideia é interessante e poderíamos ir listando outros sentidos:

– intestino preso = problemas mal resolvidos

– tosse e alergias respiratórias = irritação com algo no ambiente

E assim por diante. Este tipo de quadro de significados das doenças emocionais é interessante porque seria uma saída para a cura. Se eu estou sentindo dor de cabeça, avalio se estou me criticando. Se é verdade que estou me criticando, tento parar de me criticar para que a dor de cabeça cesse. Se eu estou com o intestino preso, é porque tenho que resolver um problema. Se resolver o problema, o intestino volta a funcionar normalmente.

Ou seja, teríamos a elucidação da causa psíquica e teríamos então um “remédio” para que a causa fosse eliminada e o sintoma curado.

A questão é que, desde a psicanálise, ficou comprovado que estes sentidos gerais são muito gerais. Em outras palavras, o sentido, o significado será individual. Pode talvez ser verdade que dores de cabeça tem relação com autocrítica, porém, ainda que seja verdade na maioria dos casos, não será verdade na totalidade deles. E, assim, alguns casos ficarão excluídos da possibilidade de cura.

De fato, se a doença é uma doença da alma, da psique, o tratamento a ser buscado não é com o médico, pois o médico não encontrará nada a ser tratado no corpo. O caminho é procurar fazer uma terapia da psique: psicoterapia com um profissional da psicologia.

Observação: em muitos casos é recomendável realmente fazer um check-up para ver se não se trata de um problema orgânico.

Com a psicoterapia, a pessoa terá à sua disposição um profissional que saberá conduzir na elucidação do significado individual, particular, único do sintoma.

Por exemplo, como disse, pode ser verdade que uma alergia é sinal de uma irritação (emocional) com um estímulo ambiental. Mas para uma pessoa, o que irrita é o vizinho, enquanto para outra o que irrita é o seu companheiro…

Na psicoterapia, portanto, será possível descobrir melhor e mais a fundo as causas do sintoma e, mais importante, encontrar formas de solucionar o sintoma, o sinto-mal.

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Memória genética: como sabemos o que não aprendemos

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Conheci meu primeiro savant há 52 anos e fiquei intrigado com essa condição impressionante. Uma das características mais marcantes e consistentes nos savants é o fato de que eles claramente sabem coisas que nunca aprenderam. Leslie Lemke é um talentoso músico apesar de não ter tido uma única aula de música em sua vida. Assim como “Blind Tom” Wiggins, que viveu um século antes dele, sua genialidade musical surgiu tão cedo e tão espontaneamente durante a infância que não seria possível que tivesse sido aprendida. Veio “de fábrica”. Em ambos os casos, músicos profissionais testemunharam e confirmaram que Lemke e Wiggins tinham acesso inato às chamadas regras musicais, ou a vasta sintaxe musical, mesmo na ausência de treinamento formal.

Alonzo Clemmons nunca teve uma aula de arte em sua vida. Quando criança, depois de uma lesão na cabeça, ele começou a esculpir qualquer material que encontrasse e hoje é um célebre escultor, capaz de moldar um espécime perfeito de qualquer animal com argila em uma hora ou menos posicionando cada músculo e tendão perfeitamente, mesmo tendo visto o modelo apenas uma única vez. Ele não teve nenhum treinamento formal.

Para explicar como o savant tem acesso inato a técnicas e conceitos da arte, da matemática, da música e até da linguagem, sem treinamento formal e na presença de uma enorme deficiência, parece a mim que é preciso que exista uma “memória genética”, nos circuitos de memória cognitivos/semânticos e de procedimento/hábito.

Memória genética, explicada brevemente, são habilidades complexas e conhecimento sofisticado herdados. Nos savants, seria o “chip” musical, artístico ou matemático que vem “instalado de fábrica”. Além dos exemplos mencionados acima, descrevo outros no meu livro,  Islands of genius: the bountiful mind of the autistic, acquired and audden savant (Ilhas de genialidade: a prodigiosa mente do savant autista, adquirido ou repentino, sem tradução em português).

Memória genética não é um conceito inteiramente novo. Em 1940, A. A. Brill citou o dr. William Carperter, que, ao comparar habilidades de cálculo do prodígio da matemática Zerah Colburn ao domínio de Mozart da composição musical, escreveu o seguinte:

“Em cada um dos seguintes casos, temos um exemplo peculiar de uma habilidade congênita extraordinária para determinada atividade mental, que se mostrou em um período tão precoce a ponto de excluir a noção de que poderia ter sido adquirida pela experiência do indivíduo. A esses dons congênitos, damos o nome de intuições: é praticamente inquestionável que, assim como os instintos de outros animais, eles são expressões de tendências constitutivas dos indivíduos que os manifestam”.

Carl Jung utilizou o termo “inconsciente coletivo” para definir seu conceito ainda mais amplo de tratos herdados, intuições e sabedoria coletiva do passado. Wilder Penfield, no seu livro pioneiro de 1978, Mystery of the mind (Mistério da mente), também se refere a três tipos de memória. “Animais”, ele escreveu, “mostram evidências do que pode ser chamado memória racial” (o equivalente a memória genética). Ele define o segundo tipo de memória como associada a “reflexos condicionados” e o terceiro tipo como “experiencial”. Esses últimos dois tipos correspondem, respectivamente, à memória de procedimento, ou hábito, e à memória cognitiva ou semântica.

Em sua obra O passado da mente (Piaget, 2000), Michael Gazzaniga escreveu:

“O bebê não aprende trigonometria, mas a sabe; não aprende como distinguir figuras do chão, mas o sabe; não precisa aprender, mas sabe que, quando um objeto com massa atinge outro, fará o objeto se mover. O vasto córtex cerebral humano é cheio de sistemas especializados prontos e aptos a serem usados para tarefas específicas. O cérebro é construído sob um estrito controle genético. Assim que está formado, o cérebro começa a expressar aquilo que sabe, aquilo que já veio de fábrica. Ele já chega bem munido. O número de dispositivos especiais que já vêm ativos e a postos é impressionante. Tudo, de fenômenos de percepção até física intuitiva, até regras de convívio social, vem com o cérebro. Essas coisas não são aprendidas, são estruturadas de forma inata. Cada dispositivo resolve um problema diferente. A multidão de dispositivos que nos permitem fazer o que fazemos vem instalada de fábrica. No momento em que nos damos conta de uma ação, esses mecanismos já a realizaram”.

O livro de Steven Pinker, Tábula rasa (Companhia das Letras, 2004), refuta as teorias de que o desenvolvimento humano teria começado do zero. O neurocientista Brian Butterworth, da Universidade College London, aponta que bebês têm muitas habilidades inatas especializadas, incluindo algumas relacionadas a números, que ele atribui a um “módulo numérico” codificado no genoma humano a partir de ancestrais que viveram há 30 mil anos.

Marshal Nirenberg, no Instituto Nacional do Coração, em Maryland, EUA, inspirou insights sobre os mecanismos de DNA/RNA envolvidos nesse conhecimento inato em um artigo chamado Memória genética, publicado em 1968 no Jounal of the American Medical Association (Jornal da Associação Médica Americana)

Seja utilizado o termo memória genética, ancestral ou racial, ou mesmo intuições ou dons congênitos, o conceito de transmissão genética de conhecimento sofisticado que vai muito além de instintos é necessário para explicar como os prodigiosos savants podem saber coisas que nunca aprenderam.

Temos a tendência de pensar que nascemos com uma maquinaria orgânica magnífica e intrincada (“hardware”), que é o cérebro, que teria vindo com um “hard drive” enorme, mas vazio, a memória. E o que nos tornamos seria o resultado de nossas experiências e aprendizados contínuos, que seriam adicionados um por um à memória. Mas o savant parece já vir programado com uma enorme quantidade de aptidões inatas e conhecimentos em determinada habilidade – “software” instalado de fábrica –, justificando sua expertise, apesar das dificuldades cognitivas e de aprendizagem. É uma área da função da memória que merece ser mais explorada e estudada.

De fato, casos recentes de “savants adquiridos” e “gênios acidentais” me convenceram de que todos nós temos softwares instalados de fábrica. Em resumo, algumas pessoas, após doenças ou lesões na cabeça, demonstram habilidades repentinas, por vezes prodigiosas, na música, na arte e na matemática, que permaneciam dormentes até serem liberadas por um processo de recrutamento de áreas cerebrais ainda intactas ou não machucadas, reprogramando essas novas áreas e libertando a capacidade latente que elas continham.

Finalmente, o reino animal oferece amplos exemplos de capacidades complexas herdadas, que vão além das características físicas. Borboletas monarcas fazem uma jornada anual de 2.500 milhas, do Canadá até um pequeno pedaço de terra no México, onde passam o verão. Na primavera, elas começam a jornada de volta ao norte, mas o processo leva três gerações para ser completado. Assim, nenhuma borboleta que faz a viagem de volta já voou a rota inteira antes. Como elas “sabem” o caminho que nunca aprenderam? Deve ser um tipo de GPS interno herdado, porque a rota não é aprendida.

Alguns pássaros canoros, como pardais e sabiás, aprendem suas canções ouvindo aos outros. Outras espécies, como o papa-moscas-do-campo, no entanto, herdam todas as instruções genéticas de que precisam para seu canto complexo. Mesmo quando criados em isolamento à prova de som, são capazes de produzir o chamado característico da espécie sem treinamento ou aprendizado. Há muitos outros exemplos do reino animal em que traços muito complexos, comportamentos e habilidades são herdados e inatos. Nos animais,  damos-lhes o nome de instintos, mas não aplicamos o conceito às habilidades complexas e ao conhecimento herdado em seres humanos.

Alguns argumentam que, na realidade, savants prodígios herdam uma propensão, um “degrau a mais” que serve de base para que o aprendizado se desenvolva mais rapidamente, e não conhecimento em si, e, como os sabiás e pardais, aprendem com o estímulos ambientais.  Minha posição, porém, é que os prodigiosos savants são um exemplo convincente do tipo de herança genética semelhante ao dos papa-moscas-do-campo, que carrega as instruções propriamente ditas e o conhecimento que precede o aprendizado. Não quero dizer que essas habilidades herdadas (naturais) não possam ser cultivadas e melhoradas (nutridas). Elas podem. Mas eu concordo com o dr. William Carpenter, ao dizer que savants demonstram “aptidão congênita para certas atividades mentais. Sua revelação é tão precoce que exclui a ideia de que as habilidades poderiam ter sido adquiridas pela experiência do indivíduo”.

Eu chamo isso de memória genética e proponho que ela existe em todos nós. O desafio é saber como ativar a capacidade dormente de forma não intrusiva, isto é, sem que ocorram lesões cerebrais ou incidentes similares.

Darold Treffert é psiquiatra, professor da Escola de Medicina da Universidade de Wisconsin, um dos maiores pesquisadores da síndrome de savant no mundo.

Este artigo foi originalmente publicado no blog para convidados da Scientific American, em 28 de janeiro de 2015. 

Por: Darold Treffert

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